A ciência por trás da segurança alimentar
À medida que as tendências globais como as alterações climáticas, a urbanização e a alteração demográfica reformulam a indústria alimentar, existe pressão para fornecer alimentos seguros e sustentáveis em todas as fases da cadeia de abastecimento.
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Para assinalar o Dia Mundial da Segurança Alimentar 2025, a 7 de junho, falámos com Annelies Van Oosterom, International Business Development Manager Food, Feed & Agriculture da Kiwa, sobre o papel da ciência para nos ajudar a enfrentar os riscos de segurança alimentar em todo o mundo. |
Num mundo que enfrenta inúmeros desafios de segurança alimentar, a Kiwa tem orgulho em ser um dos principais organismos de certificação acreditados a nível mundial no âmbito da alimentação humana, animal e produção agrícola. Estabelecemos parcerias com produtores, transformadores e fornecedores para auditar e monitorizar protocolos robustos - assegurando confiança, conformidade, qualidade e segurança em todo o mundo.
“Os alimentos foram sempre comercializados através das fronteiras”, comenta Annelies. “Mas atualmente, há uma variedade e um volume de alimentos sem precedentes que viajam diariamente pelo mundo, alimentando milhões de pessoas. Este comércio global de alimentos traz imensas oportunidades, mas também exige regras partilhadas para manter os alimentos seguros, justos e fiáveis.”
O Codex Alimentarius
É aqui que entra o Codex Alimentarius. Desenvolvido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e pela Organização Mundial de Saúde (OMS), o Codex Alimentarius estabelece normas alimentares internacionais, diretrizes e códigos de conduta que garantem a segurança, a qualidade e a transparência nos mercados alimentares globais, para os consumidores que compram produtos importados ou para os importadores que adquirem alimentos de todo o mundo.
Desde a sua criação em 1963, o Codex - que tem como slogan “Safe, Good Food for Everyone, Everywhere” - tem evoluído para satisfazer as necessidades de um mundo em rápida mudança. Com o comércio internacional de alimentos a exceder atualmente os 2 biliões de dólares por ano, o Codex e a ciência que lhe está subjacente continuam a desempenhar um papel vital na criação de um sistema alimentar global mais seguro e mais justo - para todos.
Áreas de Risco
Quais são algumas das principais ameaças que enfrentamos na jornada para garantir “alimentos bons e seguros para todos, em todo o lado”? Annelies destaca três áreas de risco:
Doenças de origem alimentar
Todos os anos, cerca de 600 milhões de pessoas adoecem e 420.000 morrem devido à ingestão de alimentos não seguros. Isto significa que aproximadamente 1 em cada 10 pessoas em todo o mundo adoece anualmente devido a doenças de origem alimentar. O encargo económico ultrapassa os 110 mil milhões de dólares anuais nos países de baixo e médio rendimento, devido à perda de produtividade e às despesas de saúde. Pelo menos 200 doenças são causadas pela contaminação dos alimentos através de uma série de perigos. Estes incluem, entre outros, bactérias, fungos e parasitas, contaminantes, substâncias químicas, nomeadamente resíduos de pesticidas, aditivos prejudiciais à saúde, resíduos de medicamentos veterinários, toxinas naturais nos alimentos para consumo humano e animal.
As doenças de origem alimentar atrasam o desenvolvimento socioeconómico ao sobrecarregarem os sistemas de saúde e prejudicarem as economias nacionais, o turismo e o comércio. Como refere Annelies, “Há muito em jogo na proteção da saúde dos consumidores no comércio alimentar. Garantir a segurança alimentar não é apenas um imperativo de saúde pública - é essencial para construir comunidades resistentes e promover o crescimento económico sustentável.”
Fraude alimentar
Outro grande risco na indústria alimentar é a fraude, que pode assumir diversas formas. Annelies enumera algumas delas:
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a substituição, que envolve a troca de um ingrediente de maior valor por um mais barato - como a utilização de óleo vegetal em vez de azeite;
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a adulteração, que se refere à adição de substâncias estranhas, como a diluição do leite com água, para aumentar o volume;
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a rotulagem incorreta também é comum, envolvendo falsas alegações sobre a origem, o tipo ou os ingredientes de um produto;
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a contrafação ocorre quando são fabricados produtos de imitação, que se assemelham muito aos artigos genuínos;
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a adulteração ou a reetiquetagem de produtos, que envolve a reembalagem de produtos expirados ou de baixa qualidade para os fazer parecer frescos ou de alta qualidade;
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a fraude documental, em que a documentação falsificada deturpa a origem, a qualidade ou a certificação de um produto, é outra tática utilizada para enganar os consumidores.
Os produtos normalmente abrangidos incluem azeite, marisco, mel, especiarias, leite, sumos, alimentos biológicos, xarope de ácer, carne de vaca e de porco. Um exemplo notável é o escândalo da carne de cavalo de 2013, em que se descobriu que os produtos de carne de vaca vendidos na Irlanda e no Reino Unido continham ADN de cavalo e de porco. A fraude prejudicou gravemente a confiança dos consumidores, levou a uma queda de 410 milhões de dólares no valor do setor afetado e fez com que as vendas de hambúrgueres congelados caíssem 43%. A fraude alimentar pode ter consequências graves, tanto para os consumidores, como para as empresas”, observa Annelies.
Alterações climáticas
O terceiro e maior risco, de acordo com Annelies, são as alterações climáticas. O setor alimentar e agrícola está na linha da frente das alterações climáticas. Desde condições meteorológicas extremas, incluindo o stress térmico e a alteração da precipitação, até à perda de biodiversidade e à mudança das zonas de cultivo, o impacto é real.
As alterações climáticas resultam numa menor disponibilidade de alimentos, numa potencial redução da sua qualidade e no aumento dos preços. Por exemplo, o stress térmico no gado aumenta os riscos de contaminação, o bolor nos cereais, devido à humidade, aumenta as ameaças de micotoxinas e a mudança das zonas de cultivo introduz novos riscos químicos e microbiológicos.
O papel da ciência
"Na proteção contra estes e outros riscos relacionados com os alimentos, a ciência desempenha um papel vital", diz Annelies. "A ciência está por detrás de tudo o que fazemos, porque todas as normas globais de segurança alimentar, estabelecidas para controlar os fatores de risco, se baseiam em dados científicos. À medida que os riscos e perigos aumentam, o mesmo acontece com a investigação científica. A ciência está no centro da segurança alimentar. Ajuda-nos a compreender o que faz com que os alimentos não sejam seguros. E é parte integrante do nosso trabalho de prevenção de doenças de origem alimentar, de combate à fraude e de mitigação das alterações climáticas”.
Descobertas recentes
O desenvolvimento científico recente conduziu a muitas melhorias na segurança alimentar. Annelies cita uma série de exemplos:
- o reforço dos requisitos em questões como a utilização da água, a biodiversidade e a saúde dos solos;
- a gestão integrada das pragas e conservação da paisagem;
- o Modo de Produção Biológico, que exige fatores de produção de origem natural;
- o bem-estar animal;
- os sistemas de ciclo fechado;
- a integração da sustentabilidade nos sistemas de segurança alimentar.
A ciência e a conformidade criam confiança
O Dia Mundial da Segurança Alimentar 2025 é uma chamada de atenção para o facto de que, enquanto os cientistas e os organismos de certificação procuram adaptar-se à evolução dos riscos e perigos, as empresas do setor alimentar, dos alimentos para animais e da produção agrícola devem também enfrentar o desafio de acompanhar as expectativas crescentes e a evolução da dinâmica global.
"A conformidade com as normas internacionais já não é opcional, é uma necessidade estratégica”, afirma Annelies. "O aumento do comércio global exige normas claras e confiança nos produtos alimentares, e os consumidores querem transparência e práticas éticas na produção alimentar. É aqui que a Kiwa se destaca, porque ajudamos as empresas a enfrentar estas mudanças e a garantir que os processos de certificação permanecem robustos e preparados para o futuro. Quer se trate de segurança alimentar, qualidade dos alimentos para animais, práticas de produção biológica ou objetivos de sustentabilidade, a certificação ajuda as empresas a estar um passo à frente: é um bilhete para o comércio e para a segurança alimentar mundial."
